sexta-feira, novembro 11, 2005

Day Spa

Fazer a barba é algo que faz parte da rotina de qualquer homem. Seja com uma Prestobarba descartável ou com uma Match3 Turbo ultra-moderna, os pouco mais de 10 minutos passam de forma mecânica. Todo cuidado é pouco para não rasgar a pele na pressa para chegar ao trabalho. Fazer a barba também pode ser um momento de descontração, principalemnte quando ela é feita em alguma barbearia, daquelas antigas, tradicionais, aonde o barbeiro conhece todo mundo, sabe de tudo que está acontecendo. Daquelas aonde, além de ser uma barbearia, é também um centro de informação inútil, um ponto de encontro de desocupados, entre outras coisas.

Normalmente existe uma fidelidade entre o cliente e o barbeiro, afinal, é ele quem vai estar com uma navalha nova e afiada tirando os pelos da cara e do pescoço do cliente. Mais do que fidelidade, é uma relação de confiança. E quando o cliente é antigo, o barbeiro torna-se um amigo, um confidente. Um cúmplice. É somente o barbeiro que sabe como a barba daquela pessoa precisa ser feita. Isso nem esposa nem namorada sabe. Se você tem um barbeiro preferido, orgulhe-se dele. Você tem um amigo.

Meu barbeiro de confiança é o Toninho. Ele foi o barbeiro de confiança do meu avô. É o barbeiro de confiança do meu pai. Enfim, é o nosso barbeiro de geração em geração. Um português instalado com sua pequena e simples barbearia, há mais de 30 anos, no Bom Retiro. Por lá vê-se de tudo. De aposentados a executivos, de 'mishignes' a doutores, de 'shlepers' a playboys. Lá fala-se yidish, grego, italiano. Lá conta-se piadas. Judeu conta piada de judeu. Negro contra piada de negro. E todo mundo dá risada. Por lá, encotra-se revistas pornográficas tão velhas e empoeiradas quanto seus frequentadores. Por lá, vê-se de tudo! Fala-se de tudo!

Hoje, porém, traí o Toninho. Por causa do trânsito da capital paulista em véspera de feriado, fui conhecer outra barbearia. Tradicional na Vila Mariana, o Salão Capri é conhecido no bairro por ser utilizado também como set de filmagens de comerciais. Fez-me a barba um desconhecido. Não houve mais do que meia duzia de palavras trocadas. Falou sobre a vizinha vagabunda que roubou-lhe R$1,30 e uma caneta BIC. Come ela, eu falei. Cruz credo, não como este troço nem no inferno, ele respondeu. Além deste pequeno diálogo, a cordialidade entre cliente e barbeiro aconteceu, afinal, era ele que iria passar a navalha na minha garganta. No salão ouvia-se apenas o som da TV que transmitia o jornal local, enquanto o italianão dono do salão tragava seu cigarro. Barba bem feita, sem ferimentos, pele lisinha e R$ 13,00.

Barbearia do Toninho - Rua Correia de Melo, Bom Retiro.
Barbearia Capri - Rua Cubatão, Vila Mariana.

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